sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Aprenda a viajar pela Sicília sem colaborar com a máfia


Para um estrangeiro, não é raro que a imagem da Sicília esteja, invariavelmente, associada a organizações mafiosas. Quase sempre, pensar no sul da Itália significa evocar clichês como aqueles de mafiosos que, por exemplo, tornaram-se mitos cinematográficos. Basta lembrar que Vito Corleone, interpretado por Marlon Brando em "O Poderoso Chefão", foi considerado o melhor personagem de todos os tempos na história da sétima arte.
No entanto, quem vive realmente naquela região sabe que a Cosa Nostra, a poderosa máfia siciliana, é composta por homens de carne e osso, capazes de cometer atrocidades inimagináveis, e que muitos comerciantes e empresários locais são vítimas de um intimidatório esquema de extorsão. Muitos deles pagam regularmente uma espécie de propina às organizações criminosas para evitar que suas lojas e negócios sejam destruídos
Do ramo alimentar ao turismo, das licitações aos abastecimentos públicos, do setor imobiliário ao da construção civil, a presença das organizações mafiosas é cada vez mais acentuada; uma chaga social que condiciona, significativamente, a atividade econômica de um país inteiro.
Muitos preferem enfrentar cotidianamente tal realidade calando-se. Mas, por sorte, também são numerosos os jovens sicilianos que arregaçam as mangas, recusando-se a fazer parte dessa rede, com propostas diversas para dizer “não” à máfia.
Pizzo Free
Uma das maneiras de colaborar com quem acredita que existe uma Sicília saudável, disposta a colocar em risco a própria vida a favor da legalidade, é aderir ao chamado turismo ético.
Visitantes desavisados podem adorar os pratos servidos em uma típica trattoria palermitana, desconhecendo o fato que aquele estabelecimento paga uma “taxa” à máfia local em troca de proteção. Trata-se do chamado “pizzo”.
Portanto, se não quiser contribuir com uma economia paralela e, sobretudo, ilegal, comece a sua viagem pela Sicília informando-se sobre os locais que declararam não pagar propinas às organizações criminosas.
  • Na Sicília, jovens visitam Capaci, lugar no qual a máfia assassinou o juiz Giovanni Falcone
A agência Addiopizzo Travel, por exemplo, é uma das primeiras a organizar roteiros turísticos muito originais intitulados “pizzo free”. Administrada por três jovens, inicialmente a agência promovia unicamente roteiros de um dia a estudantes da região.
No entanto, em pouco tempo, o sucesso de Addiopizzo Travel superou as fronteiras italianas, e hoje a agência realiza não só roteiros que levam os turistas a lugares que tornaram-se símbolos da luta contra a máfia, como também passeios pelas belezas naturais e arquitetônicas sicilianas.
Desde a escolha do hotel, restaurante, até as redes de lojas sugeridas aos turistas para compras fazem parte de um circuito “pizzo free”. Assim, o visitante tem a garantia de conhecer a Sicília sem deixar nenhuma contribuição financeira para a máfia.
A idéia dos jovens sicilianos agradou tanto que algumas instituições apressaram-se em promovê-la. A embaixada alemã na Itália foi uma delas, porque apostou na tradução do guia elaborado pela agência, um documento no qual são citados mais de 450 comerciantes de Palermo que não pagam o pizzo.
Roteiro original
O clássico tour “pizzo free” criado pela agência dura sete dias e compreende um percurso com metas que unem o melhor da Sicília: arte, folclore, natureza, história e enogastronomia.
O primeiro dia de viagem inclui um passeio pela rodovia de Capaci, onde, em 23 de maio de 1992, aconteceu o episódio conhecido como  Strage di Capaci (Chacina de Capaci). Ali foram assassinados, em uma explosão, o juiz siciliano Giovanni Falcone, incansável inimigo da máfia, e a sua família. Em seguida, se visita o mar cristalino de Mondello e o Monte Pellegrino, de onde é possível admirar o belo panorama de Palermo.
  • A Casa della Memoria Peppino Impastato é dedicada ao jovem radialista Giuseppe Impastato, assassinado pela máfia por causa de suas críticas ferozes contra o crime organizado
No segundo dia, a viagem continua pelos pontos turísticos históricos da capital siciliana, como, por exemplo, a sua catedral, a capela Palatina e um passeio pelo bairro árabe.
Já o terceiro dia contempla excursões muito especiais. A primeira parada é em Portella della Ginestra, onde em maio de 1947 ocorreu um massacre de homens, mulheres e crianças. Eram quase todos camponeses e estavam reunidos em um comício pró-comunista. O lugar agora abriga um memorial ao aberto, com diversas escritas sobre pedras.
Dali, os grupos de turistas são acompanhados até a sede da TeleJato, uma web TV fundada em 1999 e especializada em divulgar notícias de denúncia contra o crime organizado.
Mais tarde, o roteiro inclui um encontro com o irmão de Peppino Impastato, radialista assassinado por suas denúncias contra as atividades da máfia siciliana, e uma visita à Casa Memória Felicia e Peppino Impastato.
O passeio continua, nos dias sucessivos, com visitas a alguns dos lugares mais belos da Sicília, como as praias de Cefalu, o castelo de Caccamo, construído no século 11, uma visita ao centro de documentação sobre as máfias e pelo centro de Palermo, visitando lugares como o famoso mercado de Ballarò, e reservando tempo para compras. Tudo acompanhado de refeições à base de pratos típicos.
Solidariedade às cooperativas
Quem preferir uma maneira mais direta de colaborar com os jovens sicilianos nessa luta contra a máfia pode participar de uma experiência alternativa: aproveitar o verão europeu para trabalhar, como voluntário, em uma das cooperativas agrícolas fundadas no sul da Itália para cultivar as terras que foram confiscadas dos chefes mafiosos.
Graças a uma campanha promovida pela associação Libera, em 1996 o governo italiano aprovou uma lei que estipulava que as propriedades confiscadas de criminosos poderiam ser destinadas a entidades ou cooperativas com caráter social.
  • Vincenzo Romano/Divulgação
    Estátua de Santa Rosália, padroeira de Palermo, que pode ser conhecida em um tour siciliano
Desde então, foram constituídas quatro cooperativas ligadas ao circuito Libera: Placido Rizzotto e Pio La Torre, na Sicília, Terre di Puglia, na região da Puglia, e Valle del Marro, na Calábria. Em breve, também serão inauguradas outras duas, denominadas Terre di don Peppe Diana, na região da Campania e na cidade de Catânia.
O objetivo dos jovens que anteriormente eram desempregados e agora administram as cooperativas é revitalizar as terras antes ilegais e muito castigadas, cultivando principalmente trigo e vinhedos. Apesar das intimidações e ameaças, graças aos esforços desses jovens, das terras que antes pertenciam as organizaçôes criminosas hoje se extraem produtos orgânicos de qualidade, como massa, conservas e vinhos revendidos em uma das principais cadeias de supermercados do país.
Um exemplo concreto do sucesso das cooperativas é a iniciativa da Placido Rizzotto e da Pio La Torre.
Juntas, as cooperativas produzem, em Corleone, o vinho com a marca Centopassi, o nome extraído de um filme do diretor  Marco Tullio Giordana sobre o assassinato do radialista Pepino Impastato. Isso porque cem passos era, de fato, a distância exata que separava a casa deste jovem da residência do chefe da máfia Gaetano Badalamenti.
Para mais informações:
Addiopizzo Travel: http://www.addiopizzotravel.it
Cooperativas:
Cooperativa Placido Rizzotto - Libera Terra
via Canepa 53 S.Giuseppe Jato (Pa).
Tel 091 8577655 Fax 091 8579541 - placidorizzotto@liberaterramediterraneo.it 
Cooperativa Pio La Torre - Libera Terra
via Piana degli Albanesi 84 S.Giuseppe Jato (Pa).
Tel 091 8577655 Fax 091 8579541 - piolatorre@liberaterramediterraneo.it
Cooperativa Valle del Marro - Libera terra
Via SS. 111 n.129 Gioia Tauro (Rc).
Tel 0966 505020 Fax 0966 504311 - info@valledelmarro.it 
Cooperativa Terre di Puglia
Vico dei Cantelmo, 1 - 72023 Mesagne (BR)
tel. 0831.735946 - fax 0831.736212 - info@liberaterrapuglia.it 
Para comprar os produtos  da coopertiva Pio la Torre em Roma:
Via dei Prefetti, 23, no centro da cidade.


FONTE: http://viagem.uol.com.br/ultnot/2013/01/10/sicilia-diz-nao-a-mafia.jhtm

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